Participar é coexistir

05/09/2017

Yolanda Martín. Técnica de Participação e Coexistência Cidadã na administração pública local.

A participação cidadã configura o modo de viver e, portanto, de conviver. É uma forma de estabelecer os mecanismos com os quais nos relacionamos e somos partícipes da vida no nosso ambiente mais próximo. A coexistência é definida como um conceito que contém, necessariamente, a interação como elemento indispensável – uma interação entre administração, cidadania, sociedade, mercados, etc., que envolve a participação em diferentes níveis. Nesta conexão é fundamental trabalharmos juntos em ambos os aspectos, não como dois elementos distintos, mas como um todo, no qual não é possível influenciar um sem afetar o outro.

Nos últimos anos, vivemos uma série de mudanças a nível global, mas que foram materializadas e tornadas visíveis especialmente a nível local, marcando uma mudança de era (em um nível geral) e dos modelos de gestão das políticas públicas (em particular).

Uma sociedade cada vez mais heterogênea, mais diversificada e mais individualista implica necessidades sociais mais complexas e, ao mesmo tempo, exige respostas mais específicas. Diante dessa mudança social, a participação e a ação comunitária se tornam ferramentas essenciais para a constituição da coesão social – motor da coexistência.
A crise econômica representou novos desafios de emergência social para responder às novas necessidades, assim como a diminuição dos recursos e a capacidade para lidar com isso. Além do mais, a concorrência por recursos, já existente antes da crise, se multiplicou por três, dando mais possibilidades para germinar discursos e posições de confronto entre diferentes grupos.

O surgimento imponente das novas tecnologias é um dos componentes que tem a ver com essa mudança de era. Não só representa novas ferramentas de trabalho, gestão e organização, mas também umas novas regras para o jogo. A tecnologia afeta a maneira como nos relacionamos, porém se for bem aproveitada pode facilitar a ação coletiva, melhorar a comunicação e aumentar a conectividade.

Os movimentos sociopolíticos dos últimos anos destacaram a desconfiança e o desgaste dos cidadãos no que diz respeito às instituições públicas e aos políticos em geral. Ao mesmo tempo, eles mostram um aumento no interesse pela política, uma maior exigência, uma grande demanda pela transparência e um protagonismo nos assuntos públicos. Esse interesse aproxima os cidadãos dos espaços de encontro e debate, anteriormente ocupados por um número limitado de pessoas (muitas vezes as mesmas), e facilita a interação positiva, o intercâmbio, a empatia e o fortalecimento dos vínculos entre as pessoas e o entorno. Este empoderamento dos cidadãos proporciona as bases para a gestão dos conflitos decorrentes da coexistência e também as ferramentas para garantir a representatividade dos discursos nos espaços de participação, mais além da representatividade baseada no ranking quantitativo.

Se a coesão social e a convivência na diversidade representam o possível cenário de participação, a participação representa uma oportunidade para construir espaços de convivência, modelos de cidades e vínculos identitários. Isso não é possível se não houver uma conversa sobre igualdade de oportunidades e se não há oportunidades de igualdade. Uma igualdade de oportunidades que vai muito mais além do acesso aos recursos, oferecendo possibilidades de participação social que permitam a mobilidade social e a visibilidade pública da diversidade.

Em suma, quando falamos de coesão social, falamos de coexistência e de participação. Uma sociedade sem vínculos, que apenas compartilha um espaço físico, dificilmente poderá enfrentar os desafios da vida em comunidade. É inegável que o individualismo atual e o aumento da complexidade no que diz respeito às formas de vida e categorias da diversidade representam novos desafios para o trabalho explícito quanto à construção de nossas cidades. A administração deve cooperar com a cidadania para criar espaços de encontro e debate onde se incentivem o reconhecimento da diversidade, a igualdade e a interação positiva. Essa interação será muito mais eficaz para fomentar a coesão se contiver metas e desafios comuns, ações conjuntas. A democracia direta acrescenta um excedente à já conhecida democracia representativa, que acabou sendo diluída e demonstrada como insuficiente nesse desafio de construção conjunta e responsabilidade ativa dos cidadãos. Por isso, é necessário garantir que a cidadania exerça seus direitos e deveres em igualdade de condições, o que significa oferecer as oportunidades e ferramentas para participar e coexistir de modo equitativo.

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